He ate my heart.
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About: estranha, um bocadinho perdida, apaixonada pelo mundo.

E, bruscamente, entre dois grandes penhascos, o comboio rompeu enfim como um rancor subterrâneo, alucinado de ferros e fumarada. E tive medo. Pela primeira vez estremeci de medo até aos limites da vida, não tanto, porém, da fúria do comboio, como dessa coisa insondável e enorme, tão grande para mim, que era partir. E então desejei ardentemente, profundamente, ficar. Mas era tarde: tudo quanto eu tinha feito desde há meses, tudo quanto fizera D. Estefânia, conduzia justamente àquilo mesmo - partir. Por isso, apertado de amargura, ameaçado de lágrimas, fui-me deixando abraçar em silêncio pelo Calhau. Até que, por entre um furor de fardos e cabazes, lá rompi, de saca às costas, para a carruagem de terceira. Fechei a porta, apanhei ainda o último adeus do Calhau e sentei-me então para chorar quanto quisesse. Em verdade, eu não gostaria de chorar. Mas, espoliado abruptamente da minha infância, aturdido de solidão, sentia-me quase bem dentro do choro. Inesperadamente, por entre a minha dor, eu descobria em mim o aceno de um passado. Era a grande montanha a oriente, a sua liberdade espacial, era o bafo quente de um amor perdido, a flor original de uma alegria morta. E então voltei para lá a minha face molhada, e tudo em mim disse adeus longamente.

Virgílio Ferreira in Manhã Submersa 

(Source: http, via maccc-axis)